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sábado, fevereiro 16, 2008

Identidade Intercultural


Se identidade implica, um processo de diálogo com vista à recriação e reconstrução, através do texto, também poderá ser entendida como um processo de manutenção de determinados traços culturais e das relações que eles estabelecem com outras características culturais diferentes.
Em “Making Sense” de Nadia Marks, escritora de origem cipriota criada em Londres, retrata-se a vida de uma adolescente que como ela teve que viver num país diferente: “Up until I moved to England, just three months ago, I knew exactly who I was, Julia Lemonides, fourteen years old, confident, popular, artistic, lively (…).” Em Chipre, Júlia tinha tudo: amigos, confiança, gloriosos dias de sol… agora em Londres teve que começar tudo de novo, sentindo-se uma outsider. O seu carácter fortemente determinado e o sentido de humor fizeram-na, aos poucos, recriar a sua identidade e adaptar-se ao novo clima e cultura, daquele país tão diferente e que ela tinha que abraçar por força das circunstâncias.
Desta forma, podemos pensar o ensino da arte/literatura como um poderoso instrumento para revitalizar e resgatar a identidade, a diversidade e as singularidades culturais, na medida em que através destes percursos narrativos, se podem ultrapassar e romper barreiras ao mesmo tempo que se reflecte em torno dos princípios axiológicos fundamentais ao reconhecimento da alteridade, imprescindíveis ao constructo humano.
Se a literatura como dizem Austin (1962), Searl (1983) e Iser (1978) se assemelha ao modo do acto ilocutório, “ (…) It takes on an illocutionary force, and the potential effectiveness of this not only arouses attention but also guides the reader’s approach to the text and elicits responses to it.” então, poderemos dizer que, a literatura infantil e juvenil tem uma ponderosa força perlocutória, impelindo à acção, apesar da manutenção do seu carácter ficcional. Assim, a leitura faz-nos reexaminar, por vezes, as convenções sociais e individuais perspectivando novas formas de estar e de sentir o mundo.

quinta-feira, janeiro 03, 2008

Papá chega-me a lua

Quando, no livro de Eric Carle (2006) “Papa, please get the moon for me”, traduzida para castelhano por “Papa achega-me a lua”, da editora Kalandraka, a menina pede ao pai que lhe chegue a lua, pois ela, ao vê-la ali tão perto e tão bonita, apetece-lhe colhê-la. Porém a tarefa não é fácil e o pai necessita de uma escada muito comprida para conseguir satisfazer os desejos da filha.
O texto verbal e icónico, aqui apresentado, poderá referir um sistema de equivalências de sentidos infinitesimais que podem ser estabelecidos no processo de leitura porque “ (…) meaning is imagistic” diz Iser (1997:2) e “ (…) os níveis de realidade que a escrita suscita, a sucessão de véus e de escudos talvez se afaste até ao infinito, talvez apareça sobre o nada.”, acrescenta Calvino. (1995:391)
Se o significado de um texto é imaginável e pode aparecer sobre o nada, então, poderemos imaginar também que alguns pequenos e jovens leitores, depois de estudarem o processo que levou à constituição da União Europeia, considerariam que a lua, desta história, poderia transformar-se na bandeira da união europeia. Aliás o céu azul e as estrelas amarelas das ilustrações levan-nos directamente para esse quadro. Por outro lado, a escada interminável, utilizada pela personagem pai na história, poderá representar os cinquenta anos que mediaram desde a assinatura do primeiro Tratado, no longínquo ano de 1957, até à aprovação do Tratado Reformador assinado no passado mês de Outubro, em Lisboa.
Criando desordens significativas, ou inúmeras possibilidades interpretativas este texto assumiu-se assim, na sua relação com o leitor e restituiu-lhe o seu papel preponderante na continuidade do fenómeno literário, dizia Eco. (2004:177)
Esta preponderância do leitor contribuiu para a identidade desse mesmo texto, que neste caso foi conseguida pela atribuição de um quadro de referências do mundo empírico-histórico factual, não só relacionada com a problemática da integração europeia mas também (…) “from lexical meanings to the constellation of characters.” (ISER,1997:34). Ou seja, dos significados lexicais proporcionados pelos objectos reais, em cena, como sejam, a escada e a lua, à constelação de personagens, do pai e da menina, que poderiam ser eles próprios objecto de análises poderosas.

LED Text Scroller

Na minha terra conta-se que, no inverno, à lareira, quando ainda não havia as modernices de hoje, pais e avós juntavam-se para contar histórias. As mães diziam: Venham meninos vamos às contas! Claro que não eram só os meninos que se juntavam. Era a família inteira e mais os vizinhos e até os animais que lá por casa passeavam se aninhavam para saborear mais uma noite de histórias, contos, ditos e mexericos...